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    <title>Avaliação do potencial cancerigénico de microcistinas (cianotoxinas)</title>
    <link>http://hdl.handle.net/10400.18/722</link>
    <description>Title: Avaliação do potencial cancerigénico de microcistinas (cianotoxinas)
Authors: Dias, Elsa
Abstract: As microcistinas são metabolitos secundários produzidos por cianobactérias de&#xD;
água doce e constituem um risco para a saúde pública uma vez que a ingestão de água&#xD;
contaminada com microcistinas tem sido associada a episódios de hepatotoxicidade&#xD;
humana aguda e crónica.&#xD;
As cianobactérias são constituintes naturais do fitoplâncton de água doce e&#xD;
proliferam massivamente em condições ambientais favoráveis. Porém, a pressão&#xD;
antropogénica sobre os recursos hídricos tem contribuído para o aumento deste&#xD;
fenómeno a nível global, designadamente através da contaminação das massas de água&#xD;
com resíduos urbanos, industriais e agrícolas, cujo conteúdo enriquecido em azoto e&#xD;
fosfatos constitui um estímulo para o crescimento cianobacteriano. A proliferação&#xD;
intensa de cianobactérias (florescência) tem como consequência a acumulação de&#xD;
densidades elevadas de biomassa que, após a fase de senescência, liberta para a água&#xD;
níveis potencialmente nocivos de cianotoxinas. Uma proporção elevada das&#xD;
florescências é composta por cianobacterianas tóxicas e as cianotoxinas mais frequentes&#xD;
são as microcistinas.&#xD;
As microcistinas são um conjunto de aproximadamente 60 variantes estruturais&#xD;
partilhando a estrutura heptapeptídica cíclica comum ciclo(-D-alanina1-L-x2-D-eriro- -&#xD;
iso-aspartato3-L-z4-Adda5-D-glutamato6-N-metil-desidroalanina7) em que x e z são&#xD;
aminoácidos-L variáveis e Adda é o ácido (2S, 3S, 8S, 9S)-3-amino-9-metoxi-2,6,8-&#xD;
trimetil-10-decafenil-4,6-dienóico. A MCLR (com leucina e arginina nas posições&#xD;
variáveis) é a variante mais tóxica e mais comum.&#xD;
O órgão-alvo principal das microcistinas é o fígado uma vez que os hepatócitos&#xD;
expressam ao nível da membrana citoplasmática polipéptidos transportadores dos aniões&#xD;
orgânicos, através dos quais as microcistinas entram na célula. Assim, a maioria dos&#xD;
estudos toxicológicos com microcistinas tem sido conduzida no fígado in vivo e em&#xD;
células hepáticas in vitro.&#xD;
Com base em estudos de toxicidade aguda em animais, foi estabelecido em 1998&#xD;
pela Organização Mundial de Saúde o valor-guia de 1 nM para a MCLR em água de&#xD;
consumo. Porém, este valor constitui uma medida preventiva parcial, uma vez que não&#xD;
contempla efeitos noutros órgãos nem efeitos crónicos, nomeadamente efeitos&#xD;
cancerigénicos. No entanto, estudos recentes têm demonstrado que a MCLR apresenta&#xD;
toxicidade noutros órgãos tais como os intestinos, os rins, o cérebro, pulmões e sistema&#xD;
reprodutor. Por outro lado, e embora a informação disponível sobre a toxicidade crónica&#xD;
ii&#xD;
não permita ainda a revisão daquele valor, a MCLR está actualmente classificada pela&#xD;
IARC (International Agency for Research on Cancer) como um composto&#xD;
potencialmente cancerigénico (classe 2B).&#xD;
Alguns estudos epidemiológicos associaram o aumento da incidência de&#xD;
hepatocarcinoma e cancro do cólon em populações humanas ao consumo de água&#xD;
contaminada regularmente com microcistinas. Por outro lado, estudos de&#xD;
carcinogenicidade em ratinhos revelaram que a MCLR é um promotor tumoral no&#xD;
fígado, pele e cólon. Recentemente tem sido descrita a actividade genotóxica da MCLR&#xD;
em diferentes tipos celulares. Contudo este é ainda um assunto alvo de alguma&#xD;
controvérsia na comunidade científica e não é ainda claro que a MCLR tenha, per si,&#xD;
capacidade de iniciação tumoral. Portanto, o conhecimento dos mecanismos subjacentes&#xD;
a uma eventual acção cancerigénica das microcistinas apresenta imensas lacunas.&#xD;
O objectivo do trabalho apresentado nesta tese foi a avaliação do potencial&#xD;
cancerigénico de microcistinas. Numa fase inicial seleccionou-se um modelo&#xD;
experimental in vitro (trabalho apresentado no capítulo 2). Para tal avaliou-se o efeito de&#xD;
extractos semi-purificados de duas estirpes de Microcystis aeruginosa, uma produtora&#xD;
de MCLR e outra não produtora de cianotoxinas, no crescimento e viabilidade de linhas&#xD;
celulares de hepatócitos humanos (HepG2) e de ratinho (AML12) e numa linha celular&#xD;
de rim de macaco (Vero-E6), através de testes de citotoxicidade (MTT e LDH). A&#xD;
escolha dos hepatócitos é óbvia, uma vez que o fígado é o órgão-alvo das microcistinas.&#xD;
Usaram-se hepatócitos humanos e de ratinho porque a sensibilidade à MCLR pode&#xD;
depender da espécie. Usou-se também uma linha celular de rim, com o intuito, à data do&#xD;
planeamento do trabalho, de incluir nos ensaios um modelo celular não hepático como&#xD;
controlo negativo. As estirpes de M. aeruginosa foram isoladas de florescências naturais&#xD;
colhidas na albufeira de Montargil e são actualmente mantidas na colecção de algas&#xD;
“Estela Sousa e Silva” do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA). A&#xD;
caracterização da produção de cianotoxinas pelas estirpes usadas neste trabalho foi&#xD;
elaborada previamente no âmbito de outros trabalhos de investigação decorridos no&#xD;
Departamento de Saúde Ambiental do INSA. A utilização da estirpe de M. aeruginosa&#xD;
não tóxica teve como finalidade assegurar que os efeitos observados se deviam à MCLR&#xD;
e não a qualquer efeito da matriz do extracto cianobacteriano. Contrariamente ao&#xD;
esperado, a linha celular de rim Vero-E6 apresentou uma sensibilidade similar ou até&#xD;
ligeiramente superior à dos hepatócitos (HepG2 e AML12). Por outro lado, o extracto&#xD;
da estirpe produtora de MCLR induziu um efeito genotóxico (aumento da frequência de&#xD;
iii&#xD;
micronucleos) nas células Vero-E6. Perante estes resultados inesperados e considerando&#xD;
o desconhecimento ainda existente acerca da toxicidade das microcistinas em células&#xD;
não hepáticas, seleccionou-se este modelo celular para a avaliação dos potenciais efeitos&#xD;
genotóxicos da MCLR. Para tal, a citotoxicidade da MCLR nas células Vero-E6 foi&#xD;
confirmada através da comparação dos efeitos de extractos de M. aeruginosa e MCLR&#xD;
pura (capítulo 3) e o limiar de citotoxicidade (25 μM) foi determinado, usando os testes&#xD;
MTT, LDH e Neutral Red. Os resultados deste trabalho demonstraram que a&#xD;
citotoxicidade da MCLR apresenta uma forte dependência do binómio dose/tempo de&#xD;
exposição e indiciaram que poderá manifestar-se primeiramente ao nível lisossomal e,&#xD;
sequencialmente, ao nível da mitocôndria e da membrana citoplasmática. Essa hipótese&#xD;
foi comprovada pelas metodologias de microscopia electrónica de transmissão e de&#xD;
imunofluorescência (capítulo 4). Estas metodologias permitiram identificar os alvos&#xD;
intracelulares da MCLR (retículo endoplasmático, lisosomas, citosqueleto, mitocôndria&#xD;
e membrana citoplasmática) e concluir que, de acordo com a dose e tempo de&#xD;
exposição, a MCLR desencadeia uma resposta autofágica nas células Vero, seguida da&#xD;
morte celular por apotose e necrose à medida que a dose e o tempo de exposição&#xD;
aumentam. Muitos destes resultados haviam sido já descritos para hepatócitos, mas&#xD;
apenas muito pontualmente para outros tipos celulares.&#xD;
Caracterizados os efeitos citotóxicos da MCLR, foram avaliados os efeitos&#xD;
genotóxicos nas células Vero e nas células HepG2 (capítulo 5) através do teste do&#xD;
Cometa e do ensaio dos micronúcleos (MN). O primeiro permite detectar quebras na&#xD;
cadeia de ADN, enquanto que o segundo avalia efeitos ao nível cromossómico,&#xD;
designadamente efeitos resultantes da quebra de cromossomas (clastogénese) ou da&#xD;
perda de cromossomas (aneugénese). Os resultados obtidos comprovaram que a MCLR&#xD;
(em doses subcitotóxicas, 5-20 μM) induz o aumento da frequência de micronúcleos em&#xD;
ambas as linhas celulares, mas não induz danos na molécula de ADN. A semelhança&#xD;
dos resultados obtidos com as células Vero e HepG2 sugerem que a MCLR actua&#xD;
através de um mecanismo genotóxico comum nas células hepáticas e renais, muito&#xD;
possivelmente através de um mecanismo aneugénico. A distinção entre actividade&#xD;
clastogénica e aneugénica poderá ser importante para a avaliação do risco, uma vez que&#xD;
para os agentes aneugénicos pode ser possível estabelecer um limiar de exposição&#xD;
abaixo do qual não decorrem riscos de efeitos genotóxicos, o que não é aplicável aos&#xD;
agentes clastogénicos. A identificação do tipo de micronúcleos pela técnica de FISH&#xD;
iv&#xD;
recorrendo a uma sonda pancentromérica permitirá esclarecer qual o mecanismo&#xD;
associado a este efeito genotóxico da MCLR.&#xD;
Com o intuito de avaliar o efeito da MCLR na proliferação da linha celular&#xD;
Vero-E6, utilizou-se o teste de incorporação de BrdU, que avalia a transição G1/S do&#xD;
ciclo celular (capítulo 6). Os resultados permitem concluir que a exposição a doses&#xD;
muito baixas (1-10 nM) de MCLR estimula a proliferação das células Vero-E6. Note-se&#xD;
que a dose de 1nM correspondente ao valor-guia da MCLR em água de consumo&#xD;
definido pela OMS e está contemplado na legislação portuguesa (Dec-Lei 306/ 2007, 27&#xD;
Agosto) como valor paramétrico de referência. A análise por Western-blot da expressão&#xD;
de cinases proteicas activadas por mitogénicos (ERK1/2, JNK, p38) revelou que a&#xD;
MCLR estimula a proliferação da linha celular Vero-E6 através da activação da via de&#xD;
sinalização ERK1/2.&#xD;
Integrando os resultados apresentados nesta dissertação, poder-se-à concluir que&#xD;
a MCLR desencadeia uma multiplicidade de efeitos nas células Vero, sugerindo que&#xD;
estas poderão constituir um modelo celular adequado para o estudo dos efeitos&#xD;
nefrotóxicos das microcistinas. Embora o fígado seja o principal órgão de acumulação e&#xD;
eliminação da MCLR, cerca de 10% é excretada pela urina, pelo que os rins poderão&#xD;
também estar expostos a esta toxina. É de particular importância a avaliação dos efeitos&#xD;
decorrentes da exposição continuada a baixas doses, atendendo ao potencial&#xD;
cancerigénico da MCLR. Os resultados aqui apresentados acerca do efeito genotóxico e&#xD;
da capacidade da MCLR estimular a proliferação nas células Vero contribuem para o&#xD;
conhecimento dos efeitos e mecanismos subjacentes à eventual acção cancerigénica das&#xD;
microcistinas, sobretudo porque os estudos nesta área têm sido conduzidos&#xD;
maioritariamente em modelos hepáticos. Os resultados salientam, também, a&#xD;
necessidade de rever o valor-guia estabelecido para as microcistinas.
Description: Tese de doutoramento na especialidade de Toxicologia apresentada à Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, 2009</description>
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